quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pai

  20 de Novembro de 1897


Outra vez? Prometes-te que não voltavas a fazê-lo. Não sabes a vergonha que tenho em seres meu pai.
  Chegas todos os dias bêbado a casa, os vizinhos reclamam todos os dias, o álcool é já um cheiro característico da nossa casa. Todos os dias te ouço a gritar com a mãe, não te sentes mal? Que mal te fez ela ? Ela que sempre te apoiou com todas as suas forças, ela, a mulher que mais te amou em toda a tua vida, que fez sempre tudo por ti, e agora que precisa  tu abandonas?
  Para além do que ultimamente tens feito, prometes-te tanta coisa e cumpris-te tão pouco. É claro que te culpo, quem mais é culpado se não tu ? Eu ? Eu e a mãe que tanto nos esforçamos para te ajudar? E tu nem queres saber.
  Sabes o que custa tratar dela sozinha? Imaginas-te no meu lugar? Com a mãe doente e sem a tua ajuda ou apenas apoio, é horrível. Ela precisa de nós e novamente, tu nem queres saber. Tu não queres saber de nada, esqueces-te de todos os meus aniversários, não vais ás reuniões da escola ... pai eu tenho 8 anos e tu se calhar nem sabes.
  A mãe diz para eu gostar de ti, que tu no fundo és boa pessoa, mas nunca me deste uma única prova. E eu quero tanto gostar de ti quero tanto perdoar-te, mas não fazes por isso.
  Quantas vezes já te dirigis-te a mim sem segundas intenções e me disses-te que me amavas? Pai, tu nunca o fizeste, tu nunca quiseste saber de mim, abandonas-me quando eu mais preciso.
  Sabes, tenho medo de ti, tenho medo do quanto possas magoar a mãe, tenho medo das loucuras que possas cometer, medo de tudo o que possas fazer ou dizer. Pai, chega por favor, estás a destruir-nos.


11 de Agosto de 1965

  Hoje, acabou tudo. Acabou o medo, a mágoa, o silêncio, o terror. Hoje não cá moras mais, nem cá nem em nenhum outro sitio se considerarmos não existir o 'céu'. E hoje, venho dizer-te o quão serei feliz quando este dia terminar, venho contar-te o quão feliz estou por não te ver mais até ao ultimo dia da minha vida. E venho agradecer-te por me teres tornado tão forte quanto sou, obrigada por todas as cicatrizes que deixas-te, por todas as feridas ainda não saradas, por tudo o que disseste e tudo o que não disseste. Venho prometer-te a felicidade eterna, essa que é minha. Mas prometo mesmo, não serei como tu.
  E venho contar-te também, que a mãe teve uma vida excelente, e graças a mim, ela agora venceu essa doença, tão odiada como é, o cancro. A mãe, é hoje a mulher mais forte que eu já ouvi falar.
  Não lamento nada de mal que te tenha acontecido, desejo-te o pior.

A tua quase filha, *******

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